No Carnaval digital do Ano-Novo Chinês de 2026, a internet da China viveu algo inédito: a maior “guerra dos envelopes vermelhos de IA” da história. Com gigantes como ByteDance, Tencent e Alibaba distribuindo juntos cerca de 8 bilhões de yuans (aproximadamente 80 bilhões em moeda local) em bônus, prêmios e benefícios, os aplicativos de inteligência artificial dominaram o topo das lojas de apps.
Mas, passada a euforia do feriado, veio a pergunta inevitável: quantos desses usuários realmente ficaram?
A ofensiva das gigantes: uma corrida por território
Durante o período do Ano-Novo Lunar, cada empresa apostou alto para conquistar novos usuários:
ByteDance (Doubao)
A empresa se uniu à tradicional Gala do Festival da Primavera da CCTV, um dos programas mais assistidos do país. Com essa vitrine gigantesca, conseguiu popularizar rapidamente seu assistente de IA entre milhões de pessoas.
Tencent (Yuanbao)
A estratégia foi clara: dinheiro direto no bolso. Apostando em grandes recompensas e no poder de compartilhamento das redes sociais, a Tencent incentivou os usuários a convidarem amigos, criando um efeito viral.
Alibaba (Tongyi Qianwen)
Já a Alibaba optou por uma abordagem mais prática: benefícios reais no consumo, como promoções e isenções de pagamento. A ideia foi integrar a IA ao dia a dia das pessoas, conectando tecnologia e compras.
O resultado? Picos históricos de downloads e interações na véspera do Ano-Novo.
O desafio começa quando o dinheiro acaba
Segundo análises do setor divulgadas por plataformas como a Qichacha, dados impulsionados apenas por campanhas promocionais costumam subir rápido — e cair na mesma velocidade.
Com o fim dos “envelopes vermelhos”, surgem três grandes desafios:
1. Usuários oportunistas
Muitos baixaram os aplicativos apenas pelas recompensas. Quando o incentivo financeiro desaparece, o app deixa de ser prioridade.
2. Falta de hábito
Criar o hábito de usar um assistente de IA diariamente é mais difícil do que gerar um clique por curiosidade.
3. Ausência de necessidade real
Se a IA não se torna essencial para trabalhar, estudar, socializar ou se divertir, o usuário simplesmente desinstala.
Em resumo: adquirir usuários é caro. Mantê-los é ainda mais difícil.
Da guerra de marketing à construção de ecossistemas
Percebendo esse cenário, as empresas começaram a mudar o foco. A disputa agora não é só por downloads, mas por retenção e dependência.
Tencent: reforçando o lado social
A Tencent aposta na integração do assistente com sua poderosa rede social. Se a IA estiver conectada às conversas, grupos e contatos do usuário, as chances de uso recorrente aumentam.
Alibaba: IA no cotidiano
A estratégia da Alibaba é tornar a IA quase invisível — integrada às compras online, planejamento de viagens e serviços do dia a dia. Quanto mais natural for a presença da IA nas tarefas comuns, maior a retenção.
Um novo estágio na competição de IA
Essa disputa bilionária marca uma virada importante. A competição saiu da fase de “mostrar tecnologia” e entrou na era da “gestão de usuários”.
Não basta ter o modelo mais avançado. É preciso criar:
- Cenários de uso indispensáveis
- Integração com serviços já consolidados
- Experiências que gerem dependência real
Para gigantes da internet e até mesmo para veículos tradicionais como a Beijing Broadcasting Television, a lição é clara: tráfego é só o começo. O verdadeiro jogo está em construir um ecossistema no qual o usuário sinta que não pode mais viver sem aquele assistente de IA.
Depois da chuva de dinheiro, começa a prova mais difícil: transformar curiosidade em hábito — e hábito em necessidade.