A guerra dos “red envelopes”: como as gigantes da tecnologia disputam o novo “super-portal” da era da IA

Durante o Ano Novo Chinês de 2026, marcado pelo Ano do Cavalo, o setor de inteligência artificial na China viveu uma das maiores batalhas de marketing digital da história. Alibaba, Tencent, ByteDance e Baidu investiram juntos mais de 8 bilhões de yuans em campanhas de “red envelopes” digitais — superando até mesmo a famosa guerra do pagamento móvel de uma década atrás.
Mas desta vez o objetivo não era simplesmente fazer os usuários cadastrarem cartões ou experimentarem um novo serviço. O verdadeiro prêmio era muito maior: conquistar o “super-portal” da era dos grandes modelos de IA.
A corrida pela atenção de bilhões de usuários
Segundo dados da QuestMobile, até dezembro de 2025 o ecossistema de IA na China já havia atingido números impressionantes:
- 722 milhões de usuários ativos mensais em aplicativos de IA mobile
- 559 milhões utilizando assistentes de IA integrados em smartphones
- 205 milhões usando aplicações de IA no PC
Com um público desse tamanho, o Festival da Primavera se tornou o momento perfeito para uma ofensiva massiva.
As empresas apostaram em estratégias como:
- patrocínios de grandes eventos televisivos
- campanhas virais nas redes sociais
- distribuição de cupons e promoções de consumo
Tudo isso transformou a disputa tecnológica em um evento de alcance nacional, apresentando a inteligência artificial para milhões de novos usuários.
Quem ganhou a batalha do tráfego?
Durante o feriado, praticamente todos os aplicativos de IA registraram recordes históricos de usuários ativos diários (DAU). No entanto, o cenário mudou bastante após o fim das festividades.
Doubao (ByteDance): explosão de visibilidade
O Doubao se destacou graças à parceria exclusiva com o Gala do Festival da Primavera da CCTV, um dos programas mais assistidos da China.
- Pico de 145 milhões de usuários ativos diários na noite de Ano Novo
- 1,9 bilhão de interações com IA durante a transmissão
Após o feriado, o tráfego caiu — algo esperado após campanhas massivas — mas a base de usuários permaneceu significativamente maior do que antes da campanha.
Qwen (Alibaba): crescimento mais estável
O modelo Tongyi Qwen, da Alibaba, apostou em incentivos financeiros para atrair usuários.
- programa “Convide para jantar no Ano Novo”
- 30 bilhões de yuans em subsídios e cupons
O resultado foi impressionante:
- crescimento de 940% no DAU
- pico de 73,52 milhões de usuários ativos diários
Mesmo após o feriado, o aplicativo manteve cerca de 40 milhões de usuários ativos, demonstrando uma retenção relativamente sólida. Ainda assim, especialistas alertam que parte desse engajamento pode estar ligada aos cupons válidos até março.
Yuanbao (Tencent): força nas redes sociais
A estratégia da Tencent foi diferente. O foco foi explorar o poder do ecossistema do WeChat, especialmente em grupos de conversa e compartilhamento social.
Durante a noite de Ano Novo:
- 40,54 milhões de usuários ativos diários
O crescimento veio principalmente da dinâmica de red envelopes compartilhados em chats e grupos. Porém, após o fim das promoções, a atividade caiu rapidamente, retornando quase ao nível anterior à campanha.
Depois da festa: o verdadeiro teste para a IA
Apesar do sucesso imediato em termos de tráfego, analistas concordam em um ponto: distribuir dinheiro não constrói um produto duradouro.
O desafio real começa agora.
Cada plataforma mostrou sinais de posicionamento estratégico:
- Doubao ganhou enorme visibilidade e penetração em mercados mais amplos
- Qwen demonstrou potencial para integrar IA diretamente ao consumo digital
- Yuanbao encontrou espaço dentro de cenários sociais e conversacionais
Mas nenhuma dessas vantagens garante sucesso no longo prazo.
O futuro: de “brinquedo tecnológico” para ferramenta essencial
A próxima fase da competição não será definida por quem distribui mais incentivos, mas por quem consegue transformar a IA em algo indispensável no dia a dia.
Para isso, os aplicativos precisam evoluir de experiências curiosas ou divertidas para ferramentas de alto valor em áreas como:
- trabalho e produtividade
- educação e aprendizado
- consumo e comércio digital
- organização pessoal
Quando a empolgação inicial desaparecer, apenas as plataformas que resolverem problemas reais dos usuários conseguirão manter sua relevância.
Em resumo: a guerra dos red envelopes foi apenas o começo. A verdadeira disputa agora é conquistar um lugar permanente no cotidiano das pessoas — e definir quem controlará o principal ponto de entrada da inteligência artificial na próxima década.